Programa de Proteção e Restauro de Habitats Naturais

Estratégia de Combate a Espécies Invasoras na Lagoa de Melides.

1. ENQUADRAMENTO

As plantas exóticas (não nativas) têm vindo a ser introduzidas pelo homem por questões ornamentais, erradamente para controlo à erosão – causando desequilíbrios nos ecossistemas. 

Uma vez estabelecidas, podem proliferar rapidamente, competindo com as espécies locais por recursos essenciais como nutrientes, água e luz, tornando-se invasoras, conduzindo à diminuição ou extinção das espécies autóctones. 

A zona envolvente da Lagoa de Melides não é exceção.

Através da mobilização de grupos de voluntários, a associação Intertidal Melides está a implementar estratégias de gestão que visam trabalhar na proteção e restauro de habitats naturais através do controlo de plantas invasoras, no âmbito do Programa de Proteção e Restauro de Habitats Naturais da INTERTIDAL. 

LOCALIZAÇÃO E MONITORIZAÇÃO:

  • Identificação das áreas mais afetadas por plantas invasoras.
  • Acompanhamento da evolução das áreas intervencionadas.

REMOÇÃO FÍSICA:

Técnicas manuais ou mecânicas para remover plantas exóticas invasoras, libertando espaço para o restauro das espécies nativas e respetivos habitats.

RESTAURO DE HABITATS NATURAIS:

A remoção e monitorização de plantas exóticas promove o estabelecimento das espécies autóctones e recuperação dos ecossistemas afetados, promovendo a resiliência e o equilíbrio ecológico.

EDUCAÇÃO E SENSIBILIZAÇÃO:

Consciencialização da população sobre os impactos negativos das plantas exóticas invasoras e a importância das espécies autóctones na conservação da biodiversidade.


2. HABITATS NATURAIS

A paisagem vegetal da Lagoa de Melides e da zona envolvente é particularmente notável pela presença de um sistema dunar composto por diversos tipos de habitat classificados, alguns dos quais prioritários para a conservação no âmbito da Rede Natura 2000 (PTCON0034 – Comporta/Galé, Zona Especial de Conservação – ZEC).

Muitos destes tipos de habitat de dunas litorais dispõem-se em banda desde a praia até ao interior dunar, respondendo a um gradiente definido por vários fatores, sobretudo relacionados com o substrato e a salinidade.

Todavia, a singularidade desta Zona Especial de Conservação está também associada à presença de diversos tipos de habitat típicos de paleodunas, assim como a tipos de habitat de água doce ou salobra.

Nas areias litorais, desde a praia até às dunas consolidadas, dispõem-se diversas comunidades vegetais que, pela sua importância biológica e funcional, integram tipos de habitat classificados. 

À medida que nos afastamos do mar, surgem comunidades de gramíneas, dominadas pelo feno-das-areias (Elymus farctus), típicas de dunas embrionárias, seguidas por comunidades de estorno (Ammophila arenaria), características de dunas móveis de areia não estabilizada, também denominadas de “dunas brancas”. 

Mais para o interior, já em dunas estabilizadas, a vegetação é dominada por diversos arbustos baixos que surgem em mosaico com prados de plantas anuais pioneiras de floração primaveril.

Em dunas litorais estabilizadas, em locais ainda sob a influência direta da salsugem, a vegetação climácica corresponde a zimbrais de sabina da praia (Juniperus turbinata subsp. Turbinata). 

As arribas areníticas são colonizadas por vegetação perene rica em elementos dos géneros Limonium e Armeria de distribuição restrita.

Em afloramentos areníticos próximos do mar, a norte e a sul da lagoa, surgem zimbrais reliquiais de piorro (Juniperus navicularis) que urge proteger pela sua singularidade.

Já mais afastado do mar, em dunas mais antigas (paleodunas), a vegetação potencial corresponde aos zimbrais de piorro (Juniperus navicularis) e sobreirais (Quercus suber), dependendo do substrato. 

Nestas situações são os zimbrais de Juniperus navicularis que se instalam e que constituem a etapa madura da vegetação local. Contudo, tanto estes zimbrais como os sobreirais foram quase todos eliminados pelo Homem. No seu território encontram-se hoje formações vegetais que integram a sua dinâmica natural, incluindo matos de tojo (Ulex australis subsp. Welwitschianus) e de Stauracanthus spp., prados de baracejo (Celtica gigantea) e prados anuais de floração primaveril.

Muito deste território encontra-se também ocupado por pinhais mansos e bravos (Pinus pinea e Pinus pinaster) plantados ou resultantes de regeneração natural.

Por vezes, nos espaços húmidos não salgados (ribeiras e depressões húmidas), ocorrem diversos tipos de vegetação que podem ser integrados em tipos de habitat classificados, como juncais de Juncus maritimus, tamargais de Tamarix africana e salgueirais de Salix atrocinerea.

A lagoa de Melides constitui ela mesma um habitat classificado, de importância para aves aquáticas.

Habitats naturais da Diretiva Habitats (92/43/CEE)
Habitats naturais da Diretiva Habitats (92/43/CEE)

* Habitat Prioritário

Fonte: Plano de Gestão da ZEC Comporta/Galé, ICNF


3. ESPÉCIES MAIS REPRESENTATIVAS

Encontram-se referidos várias espécies classificadas ao abrigo da Diretiva Habitats, designadamente Euphorbia transtagana, Herniaria maritima, Linaria ficalhoana, Myosotis lusitanica, Ononis hackelii, Centaurea vicentina, Santolina impressa, Thymus camphoratus, Thymus capitellatus e Thymus carnosus. Destaca-se a espécie Armeria rouyana, endemismo lusitânico com distribuição restrita ao sudoeste português e que apresenta uma população importante nas paleodunas desta área. 

O habitat 2250 inclui dunas e paleodunas com zimbro e, nesta zona, é representado por zimbrais de Juniperus turbinata subsp. turbinata e zimbrais de Juniperus  navicularis (habitat 2250pt2). 

Os zimbrais de Juniperus turbinata são formações climácicas que estão presentes em dunas litorais estabilizadas, onde são ainda frequentes Rhamnus oleoides, Pistacia lentiscus, Asparagus acutifolius, Osyris lanceolata, entre outras. É uma comunidade relíquia, de elevada originalidade, que se encontra muito degradada face à ação antrópica, em especial pela expansão urbano-turística e pela proliferação de espécies exóticas invasoras 

Os zimbrais de Juniperus navicularis aqui existentes são formações raras presentes nas paleodunas, onde constituem geralmente a etapa madura da vegetação local e são prováveis relíquias dos períodos secos do Dryas Recente e do Holocénico Pré-Boreal e Boreal (período de clima frio que ocorreu há 12 700 a 8 200 anos). 

Quando estão em bom estado de conservação são frequentemente ricos em líquenes arenícolas, especialmente do género Cladonia, que desaparecem rapidamente com o pisoteio. São característicos de podzóis sobre paleodunas profundas e coexistem com os pinhais-bravos (Pinus pinaster). Esta comunidade está representada, normalmente, em pequenos núcleos e encontra-se ameaçada em toda a sua área de distribuição pela pressão urbanística, pelas explorações agrícolas e pela crescente pressão turística, assim como pela gestão florestal quando associada a limpezas generalizadas e indiferenciadas do coberto arbustivo. 

A ocupação do seu espaço natural por espécies exóticas invasoras (em especial as do género Acacia) constitui também um dos principais problemas de conservação. Refira-se ainda que estas formações têm baixa resiliência devido às dificuldades intrínsecas da reprodução por semente, assim como o facto das atuais condições climáticas impedirem, muito provavelmente, que seja atingido o seu estado ecológico ótimo (praticamente apenas se propagando por reprodução vegetativa através da raiz).

Considera-se que este habitat se encontra, globalmente, em mau estado de conservação, estando os zimbrais de Juniperus navicularis em pior estado.


4. AMEAÇAS | PRINCIPAIS ESPÉCIES INVASORAS 

Ameaças - Principais espécies invasoras
Ameaças – Principais espécies invasoras

5. OBJETIVOS

A eliminação das plantas invasoras da lagoa e ribeira de Melides, bem como das dunas e outros terrenos envolventes, é fundamental para:

– A proteção dos habitats naturais. Na ausência de inimigos naturais e da excecional adaptação às condições edafo-climáticas locais, as espécies invasoras desenvolvem-se rápida e excessivamente ocupando o espaço vital das espécies locais, acabando por eliminá-las. 

– Preservação da paisagem. A paisagem local de excecional valor cénico é ameaçada pelas espécies invasoras que transformam dunas em manchas de chorão, pinhais em acáciais, galerias ripícolas em canaviais de fraco valor cénico e nenhuma identidade local. 

– Combate à erosão eólica e hídrica. A vegetação natural das dunas e linhasde água constitui a melhor proteção contra os fatores erosivos, designadamente o vento, as tempestades oceânicas e as cheias de rios e ribeiras. A sua substituição por espécies invasoras, deixa o território mais vulnerável e menos resiliente a fenómenos naturais.

Proteção dos recursos hídricos. A vegetação ribeirinha característica dos cursos de água (salgueiros, amieiros, freixos, etc) favorece a consolidação das margens e evita o aquecimento da água no verão, reduzindo a evaporação e permitindo uma maior disponibilidade da água. A sua eliminação, com substituição por canaviais, conduz a frequentes bloqueios do caudal das linhas de água e obriga a trabalhos difíceis de controlo da sua proliferação.

– Proteção da fauna. As espécies invasoras não fornecem abrigo nemalimentação para a fauna nativa, pelo que a sua proliferação conduz também ao empobrecimento do conjunto da fauna presente na zona afetada.

– Produção florestal. O desenvolvimento do acacial em áreas florestais de pinheiro manso, pinheiro-bravo ou sobreiro conduz à redução da produção destas espécies (competição por nutrientes, água e luz) e implica encargos elevados com a sua erradicação, pelo que deverão ser prontamente eliminadas com as técnicas adequadas 


6. COMBATE

6.1 PRIORIDADES

As ações de combate a infestantes nas dunas são a primeira prioridade dado que constituem o ecossistema mais sensível, exigem menores recursos e têm elevada visibilidade, especialmente em locais próximos de acessos a praias. 

As espécies mais representadas são:

  • Chorão marítimo (Carpobrotus edulis e C. acinaciformis)
  • Chorinas (Lampranthus sp) 
  • Erva gorda (Arctotheca calendula)
  • Acácias. Principalmente acácia de espigas (Acacia longifolia) e acácia negra (Acacia mearnsii)

Como segunda prioridade encontra-se o combate a acácias e canas nas margens da lagoa e da ribeira de Melides.

Relativamente à erva das pampas ou cortaderia, apesar de ainda não estar disseminada na área de intervenção, deveria ser alvo de sensibilização no sentido dos proprietários não a introduzirem ou, caso já o tenham feito, procederem à sua remoção.

Chorão marítimo (Carpobrotus edulis e C. acinaciformis)

6.2 MÉTODOS

São vários os métodos preconizados para a eliminação das espécies invasoras, dependendo das espécies e grau de infestação. 

Chorão marítimo, chorinas e erva gorda

Nas dunas, as infestantes herbáceas (chorão marítimo, chorinas e erva gorda) serão arrancadas manualmente, colocadas em pargas e removidas após algum tempo de secagem para redução do peso e volume.

Existindo invasoras em manchas extensas, o arranque da totalidade ou faseado será ponderado (por forma a evitar o incremento da erosão eólica) e conjugado com plantações e/ou sementeira de espécies autóctones.

Acácias

As infestantes lenhosas consistem fundamentalmente nas espécies acácia de espigas (Acacia Longifolia) e acácia negra (Acacia Mearnsii). Relativamente à primeira, existe já na zona um bom nível de infestação com a vespa Trichilogaster acaciaelongifoliae que reduz substancialmente a produção de semente, pelo que o combate será adaptado a esta circunstância.

Nas áreas onde existem poucos exemplares desta espécie e pouco ou nenhum ataque da vespa (visível pela existência de galhas) proceder-se-à ao seu corte e remoção imediata do local.

Acácia de espigas com formação de galhas devido ao ataque pela vespa Trichilogaster acaciaelongifoliae.

Acácia de espigas
Acácia de espigas com formação de galhas devido ao ataque pela vespa Trichilogaster acaciaelongifoliae.

Nas restantes situações, o combate será feito na primavera, com a remoção da casca do tronco da árvore, cerca de 1 m de altura a partir do solo, secando a árvore totalmente no espaço de 1 ano. 

Após a secagem (ausência total de folhas) será cortada pela base e removida. 

A acácia negra, bem como outras acácias presentes na zona não são atacadas pela vespa Trichilogaster acaciaelongifoliae. Relativamente a todas estas será aplicado o método descrito de descasque da base do tronco.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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